
Como era de se esperar, o ritmo de publicações semanais não é o suficiente para dar conta de tudo que eu leio, assisto e jogo. Longe disso. Além disso, não são sobre todas as obras que eu sou capaz de escrever um texto de 500 a 600 caracteres. Muitas vezes, bastam um ou dois parágrafos para eu exponha tudo o que eu quero dizer. Para ficar no clichê fácil: menos é mais em certos casos.
Foi por isso que idealizei o Bloco de Notas, uma coluna mensal que será publicada na primeira sexta-feira de todos os meses, onde eu pretendo dar espaço para obras que não ganharam uma coluna específica, mas que, ainda assim, eu vejo necessidade de dar alguns pitacos.
Porém, essa edição de estreia ainda não está do jeito que eu quero que ela seja. Mudei-me na semana passada e boa parte do meu tempo livre foi direcionado para empacotar livros, quadrinhos e outras coisas chatas que se costumam fazer em mudanças. Nos próximos meses, se tudo der certo, pretendo trazer um pouco mais de conteúdo.
Mas neste mês temos: a minha decepção com o segundo volume de Condição Artificial; a releitura de Top Ten de Alan Moore; a volta da minha empolgação com o universo das Crônicas de Gelo e Fogo; alimentando o meu guilty pleasure com Tsukigakirei; e, por fim, uma jogatina diferenciada com Final Girl.
EU LI

CONDIÇÃO ARTIFICIAL (Artificial Condition / Literatura / De Martha Wells / Tradução Laura Pohl / Aleph / 2025)
O pessoal na internet adora se vangloriar de que leu determinada obra antes dela ser adaptada à TV ou ao cinema e então virar modinha. Porém, não vejo nenhum problema em admitir que vários livros e quadrinhos que me interessaram foi por causa do sucesso de sua adaptação. A minha peculiaridade é que, na maioria dos casos, eu passo longe da adaptação e dou preferência a ler a obra original. Esse é o caso da série Diários de Um Robô-Assassino, criada por Martha Wells em 2017 e adaptada para a TV pela AppleTV+ em 2025. O primeiro volume, Alerta Vermelho, me surpreendeu pela concisão e altas doses de ação.
Cento e poucas páginas que vão direto ao ponto, sustentando tensão do início ao fim. Isso, infelizmento, não continuou na sequência. Condição Artificial começa de onde volume um terminou: com o robô-assassino recém emancipado e em busca de uma vida independente. Porém, a vida longe das amarras da empresa que o fabricou não quer dizer uma vida em que ele pode mostrar a todos quem ele é. Seu sistema haqueado, que lhe confere independência de ação e pensamento, continua sendo, ao mesmo tempo, um risco e um ativo importante na sua busca para saber um pouco sobre seu passado. Passado esse que o leitor não vai descobrir após a leitura do livro.
Ou seja, além dele não ter o mesmo ritmo que tanto gostei no volume anterior, a sequência não responde ao maior mistério da história. Com isso, Condição Artificial atingiu o curioso status de livro-capítulo: de tão pequeno e incompleto, terminei a leitura frustrado e decidido a não continuar com a série.

TOP 10 – EDIÇÃO DEFINITIVA (Top 10 / Quadrinho / De Alan Moore, Gene Ha e Zander Cannon / Panini / 2025)
Ao lado de clássicos absolutos, como A Piada Mortal, Watchmen e V de Vingança, Alan Moore produziu também diversas obras que, emboras menos ambiciosas e famosas, são igualmente divertidas e cujo tempo em nada diminuem o seu brilho. Top 10 é uma dessas obras menores que não vem imediatamente à cabeça das pessoas quando é citado o nome de Alan Moore. Mas não é esse o meu caso. A história do Distrito 9 e seus policiais ficou indelevelmente gravado em minha memória quando li pela primeira vez o quadrinho há décadas atrás, quando a minha bagagem quadrinística ainda era pequena e ainda erá impressionável por obras que hoje reconheço serem de gosto duvidoso. Porém, isso não aconteceu com Top 10.
Relendo atualmente a obra, relançada ano passado pela Panini, percebo que a memória afetiva não me traiu. O mago criou um amálgama de procedural policial, aventura de super-heróis e ficção científica que se destacou para mim, em maior parte, ao carisma de seus personagens. Sob um olhar superficial, o conceito de Caixa de Brinquedos, Smax, Sarja e companhia podem parecer excêntricos, pra dizer o mínimo. Porém, a forma como Moore dá vida a eles é fantástico. Assim como é fantástico a forma como ele é capaz de condensar em poucas páginas tanto conteúdo sem sobrecarregar o leitor. Nenhum personagem é mal desenvolvido. Basta alguns quadros de introdução e desenvolvimento para eles ganharem em vida em nossa cabeça e não saírem mais dela mesmo após a leitura.
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EU ASSISTI

O CAVALEIRO DOS SETE REINOS (A Knight of the Seven Kingdoms / Série / 2025 / HBO / 1ª temporada / 6 episódios)
A minha relação com a obra máxima de George R. R. Martin é conturbada. Instigado pela série de TV Game of Thrones, me tornei aficionado pelos livros das Crônicas de Gelo e Fogo. Porém, meu entusiasmo caiu gradualmente conforme Martin adiava o lançamento do próximo livro, que não viu a luz do dia até hoje. A cada novo adiamento foi ficando claro para mim (e para praticamente todo mundo) que o último interesse de Martin no momento é terminar de escrever a sua saga literária.
É impossível não associar o final melancólico de Game of Thrones com o fato de que não havia mais material a ser adaptado dos livros. Quando os produtores e roteiristas da série (que dentre eles inclui o próprio Martin) precisaram concluir a trama escalafobética em alguns episódios, tudo foi ladeira a baixa. A Casa do Dragão, por sua vez, parece estar seguindo o mesmo destino: um início promissor que se seguiu em uma segunda temporada bem meia boca.
Foi por isso que recebi com os dois pés atrás a notícia de que a HBO adaptaria a sua outra obra ambientada em Westeros. Minha única esperança de que uma obra de qualidade sairia dessa empreitada era o fato de que, ao contrário do final de Game of Thrones e A Casa do Dragão, O Cavaleiro dos Sete Reinos teria os livros nos quais se basear. No fim, essa esperança preponderou. A série não tem tudo aquilo que me fez me apaixonar por Game of Thrones no início, como a intriga política, mas apresenta uma boa história de fantasia medieval escorada em uma carismática dupla de protagosnistas.

TSUKIGAKIREI (Anime / 2017 / Chrunchyroll / Estúdios feel. e FlyingDog / 12 episódios)
Perdido no imenso acervo da Chruckyroll brasileiro, esse slice-of-life lançado em 2016 nada apresenta de diferente às inúmeras produções do mesmo gênero. Porém, algo me chamou a atenção neste anime. A princípio, ele não foge da fórmula da descoberta do primeiro amor no contexto do colégio. O anime foca no relacionamento entre Azumi e Mizuno, que se conhecem no início do ano letivo ao descobrirem que passarão a estudam na mesma classe. Bastante tímidos a princípio, como é comum nos animes de romance, eles vão pouco a pouco baixando a guarda, abrindo espaço para o amor florescer. Embora Tsukigakirei repita uma fórmula pouco original nos primeiros dois episódios que vi, a execução é muito competente, graças principalmente a boa química do casal principal e ao bom ritmo da trama. O elemento mais original é o sonho de Azumi se tornar escritor. Durante suas leituras, há várias menções a Usamu Dazai, um autor japonês real bastante conhecido pela melancolia de sua obras, especialmente pela sua obra mais famosa, O Declínio de Um Homem.
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EU JOGUEI

FINAL GIRL (Final Girl / Board Game / Ludofun / 2025 / Criado por )
Quem nunca esbravejou para a tela cornetando as decisões questionáveis da protagonista de um filme de terror? Chegou a hora de você provar que pode fazer melhor. Final Girl te coloca nesse papel de principal vítima de um implacável serial killer que deve ajudar no resgate de outras vítimas ao mesmo tempo que precisa encontrar um meio de o vilão, antes que ele dê um fim em você.
Misturando mecânicas de rolagem de dados e deck buiding, o game coloca à disposição do jogador uma gama de cartes de ações, tais como atacar, retaliar, defender e focar, que deve ser cuidadosamente administrada antes que seu tempo acabe. Ou seja, tempo é um recurso escasso e importante. Cada carta de ação demanda um determinado valor em tempo para ser executada. Outra preocupação do jogador é manter os pontos de horror baixo. Quanto maior o horror causado pelo assassino, menos dados são rolados e, consequentemente, menores serão as chances de sucesso nas ações.
Essa interessante mistura de mecânicas clássicas de board games e conceitos de RPG, tornam Final Girl um jogo de fácil apelo e comercialmente rentável.










